07 dezembro 2008

Desafio


Desafio: escrever tudo o que nos vem à cabeça quando olhamos para uma determinada imagem ou "mapa".

Eis a imagem com que fiquei para comentar.


Eis o comentário:

É curioso o que se pode pensar das coisas que vemos, e de facto não é todos os dias que nos põem uma folha à frente com um “mapa” e dizem para escrevermos numa página o que nos vem à cabeça ao olhar para esse mesmo mapa. É um desafio! Mapas mais banais, mapas menos banais, mapas mais “mapas” e mapas que parecem ser tudo menos isso…

Tinha-me calhado descrever uma face humana com diferentes tonalidades de cores quentes. Mas… que “mapa banal”! Porque não escolher algo mais “polémico”? Decidi então ficar com a imagem da penetração de um pénis numa vagina. Já que é um desafio grande, ao menos que seja um grande desafio! É certamente uma ilustração pertencente a algum livro de ciências na parte do aparelho reprodutor… no entanto, risota geral quando disse com que imagem fiquei.

Como seria de esperar. Mas porquê? Porque seria de esperar? Porque é que palavras, imagens, vídeos com a componente retratada na imagem são sempre alvo de tanta euforia, sorrisos malandros, risos maléficos…? Porque é que há sempre alguma piada que se desvia para tocar no assunto? Porquê tantas anedotas, falatório, piadas, e gestos que invariavelmente estão relacionados com o tema da ilustração? Só porque dá prazer? Há tantas outras coisas que também dão prazer!

Porque é que uma coisa afinal tão normal da vida é constantemente motivo de chacota? Penso que seja consenso geral, ser normal ter relações sexuais. Não existe nada de absurdo nisso. Acho que se perguntasse isso a uma série de pessoas, a resposta óbvia seria “é uma coisa normal”. Então? Também se faz assim piadas, risinhos, alusões constantes a todas as outras coisas normais da vida? Não me parece. Afinal se é uma coisa normal… porque todos ficam alterados quando se fala de ter relações sexuais, de fazer sexo, de fazer amor, etc.? E até se arranjam palavras menos próprias e bem ordinárias para referir um acto tão normal…

No fim de contas, se aqui estamos, é porque houve duas pessoas que nos conceberam… e que para isso tiveram de ter relações, de fazer sexo ou amor para nos ter gerado! Embora às vezes ponhamos essa ideia de parte, porque até custa a crer, parece que “há coisas que só acontece aos outros”. Mas no fundo, sabemos que foi assim. E, haverá acto mais nobre do que trazer alguém ao mundo? Porquê tanta chacota com uma acção que origina tão grandioso feito?

Para alguém nascer, os seus progenitores tiveram de fazer sexo, ou amor… não é bem a mesma coisa, são conceitos muito diferentes… e hoje em dia fala-se muito em sexo e pouco em amor. Talvez essa seja uma razão de tanta violência e carnificina em lugar de sentimentos, de tanta dominação em vez de respeito, de tanta chantagem e subjugação em vez de igualdade. De facto, em todo o lado se fala de sexo, nascem livros que falam sobre sexo, os anúncios publicitários têm sempre a componente sensual do sexo, quando vamos a um quiosque inúmeras revistas com poses apelativas de mulheres esbeltas tentam captar a atenção, canais de TV exibem com naturalidade a um público infinito o que cabe apenas à intimidade de duas pessoas…

Porquê? Porque na verdade não se faz amor, faz-se sexo. E o sexo vende, e todos sabemos isso. A “profissão mais velha do mundo”, deve ser provavelmente a profissão mais triste… Alguém ter de vender o seu corpo para que o outro tenha sexo! Para que sinta prazer físico e depois “Xau!”. Em troca deixa dinheiro, como se fosse uma máquina de chocolates.

O sexo para além de não significar amor, é uma praga. Pior do que o dinheiro e a corrupção económica vigente no mundo em que vivemos. Por causa do sexo, por aí existem infinitas redes de pedofilia, incontáveis casos de abusos sexuais e violações, milhares de mulheres são diariamente subjugadas, espancadas, humilhadas, violadas, em especial nas regiões mais atrasadas onde a religião comanda cada minuto da vida.

E aí? Também se fazem piadinhas? Onde está o prazer afinal? Nestas regiões do mundo, mais atrasadas e menos desenvolvidas, as mulheres não são mais do que objectos reféns dos homens, cuja única coisa que vêem é sexo, e que na verdade não querem as mulheres para mais nada a não ser isso. Eles fazem sexo. Elas não. Há uma grande diferença.

Muitas mais coisas se podiam dizer e comentar acerca desta imagem. De facto esta suscitou-me logo ideias que provavelmente não foram aquelas que motivaram risotas e chacota quando a escolhi. Afinal uma imagem pode dizer muito mais do que aquilo que mostra.

E de facto acho que o que me veio à cabeça não é propriamente para rir, nem motivo de troça. Uma coisa normal, ou que supostamente devia ser normal e de livre vontade de cada pessoa para a fazer, é a infeliz tortura diária de milhares de mulheres, a única razão de elas existirem segundo a perspectiva de quem as massacra, de quem vive para a praga do sexo!

Os homens são carnais e as mulheres sentimentais, mas há limites! E isto é o culminar dessa obsessão doentia por possuir alguém que por eles é considerada inferior, servil, uma verdadeira escrava em todos os sentidos. O sexo pode significar prazer, mas é o pior demónio da humanidade!

Então, qual é a piada da imagem agora?

1 comentário:

Luís disse...

Que desafio fascinante... bem, a história da reacção que o sexo provoca certamente não é nova.
Outra faceta sem-vergonha da minha história que vai ser lançada para o espaço- quando eu era miúdo, uns 7, 8 anos, descobri as imagens eróticas através de revistas e algumas imagens com que me deparava. Não porque era um pervertido, mas porque as imagens punham-me quase em transe, emanavam um simbolismo artístico e emocional muito grande para a minha mente ainda muito impressionável. Era como se fosse algo muito sagrado e milagroso. Depois de ter passado por aquela fase da adolescência, vejo como se tornou em algo para aliviar um tédio, uma dor ou um ressentimento talvez. Não são as roupas ou poses que são indecentes, são as pessoas, as que vendem e as que compram. Sinceramente, digo que posso sempre usufruir do sexo, mas já não gosto do que se tornou na minha mente, para onde todos caminhos irão dar, e de onde surgem todos os caminhos. Fica tudo muito fechado e com pouco por dentro. E no final, somos todos forçados a aceitar o facto de as mulheres serem receptoras de sentimentos, condenadas a serem subordinadas ou absolutamente sozinhas na sua total liberdade e os homens como somente um sistema de suporte de vida para um pénis. Será assim tão categórico? Se fosse, não estaria a ouvir o meu (relativamente pequeno ) lado feminino a dar um conselho: « Lembra-te que irás casar com um homem, não te podes surpreender. Se tiveres que escolher, escolhe um que não diga «tetas» ou «melões».