30 abril 2013

Parque Mayer, os bastidores da cidade...


"Cheguei a Lisboa. E tudo continua naquele estilo, naquele jeito mágico de extravagância, quando o destino começa a pregar-nos partidas de génio de lanterna mágica. Nem é preciso esfregar a lâmpada.
A Rua do Salitre é um verdadeiro toboggan que desce em ziguezague da colina do Bairro Alto até à Avenida da Liberdade, a orgulhosa artéria elísia.

A Avenida da Liberdade é uma correnteza de árvores que desce do Parque Eduardo VII até à Baixa; um longo rio urbano cujo estuário se confunde com o largo do Rossio, onde direcções e destinos se diluem… é também o tubo digestivo da cidade, pelo qual transita um tráfego automóvel cada vez mais difícil de absorver e evacuar. 
Essa artéria ruidosa e comercial, outrora passeio público, e em temos paga, já não é um lugar ideal de convívio ou de encontro.

Na parte de trás da Rua do Salitre encerra-se um parque escondido… o crepúsculo cai sobre uma área de teatros mortos, que mais parecem silos, imensos reservatórios de nostalgia.
No coração da cidade, esse espaço constitui um enclave inconcebível de cenários esquecidos, um parque de atracções que não atrai ninguém, um beco sem saída de fantasmas.

O Parque Mayer é um espaço morto. O seu monumental portão art deco dá acesso a uma cinecitta abandonada. Ruas e ruelas de paralelepípedos encerram teatros e cinemas há tanto tempo fechados que as grades enferrujaram. O cartaz a preto e branco do último espectáculo do Capitólio, o grande “silo”, reforça a sensação de relógio parado na hora de encerramento. 

Mergulho nos bastidores da cidade. Os rumores extinguem-se como os aplausos, tornados recordação. As revistas foram arrumadas nos vestiários da memória popular. 
Apenas resiste o Teatro Maria Vitória, à entrada, que, contra ventos e marés, apresenta um corpo de bailado moderno, numa luxuosa revista à portuguesa, em cena há mais de doze anos. As fotografias exibem bailarinas que levantam bem alto as pernas nuas. 
Os outros edifícios, cenário abandonado às intempéries, estão minados pela ruína. As paredes esboroam-se, as ervas crescem entre as telhas e entre as pedras da calçada.

E ao longe avista-se uma tabuleta que indica a direcção do Restaurante Gina ao fundo do beco. O restaurante Gina é um espaço tão insólito como um campo de refugiados em ruínas.
Fica situado entre um parque de estacionamento deserto, de alcatrão gretado, e uma barraca de tiro, de arcos mouriscos, completamente desconjuntada.
O restaurante está encostado ao muro do Jardim Botânico, que domina o Parque Mayer; as palmeiras e os eucaliptos, observadores indiscretos, espreitam sobre o parapeito.

Passa um amolador de facas e navalhas, a empurrar a sua pequena oficina ambulante. Desde a minha infância que não vejo amoladores de tesouras. Sinto-me invadir por uma onda de timidez e não me atrevo a abordá-lo de tal forma me parece estar a cruzar-me com uma figura de cera, saída do imobilismo do museu, de boné enterrado na cabeça.

No Restaurante da Gina, a cozinheira é negra. Abana os carapaus que fumegam alegremente. Imagino-a cabo-verdiana, porque ela passa a arrastar os pés, com aquela lentidão das ilhas que nenhum vento urbano consegue contrariar."


JYL

13 outubro 2012

Pre_textos...


Parabéns queridos Meridianos Paralelos. Desejo que perdures por muitos longos anos e que tenhas tudo de bom que mereces no meio desta blogosfera global impermanente, inconstante, assustadora, irrequieta, agitada, mediática, cansativa, em que qualquer coisa serve para postar, mais à procura de lucro com cliques fugazes dos leitores, do que propriamente com a satisfação de quem escreve posts. 

Fazes hoje 5 anos de existência. Uma quantia bem boa relativamente à média de sobrevivência e actualização dos blogues que há tempos ouvi ser cerca de 3 meses.
Não é que ande a vir muito frequentemente aqui. Realmente não. Mas o que é facto, e o que eu acho realmente importante, é que eu não me esqueço de ti e do que significas para mim. 
Por mais tempo que esteja sem estar contigo.
Por mais tempo que eu esteja ausente de ti, tu nunca estás ausente de mim.
E isso é que é especial.
E por isso, como prenda de anos, apesar tu seres sempre a minha prenda, deixo-te aqui um texto que já há tempos estou para postar aqui. E que não houve oportunidade entretanto, mas que hoje não há mais desculpas para outros entretanto's.
E este texto, de certa forma, aborda aquilo que faço através de ti. E acho que não são necessárias mais palavras. As que se seguem falam por si...

"Escrever é traduzir.
Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua.
Transportamos o que vemos e o que sentimos para um código convencional de signos, a escrita... e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação, a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não tanto a integridade da experiência que nos propusemos transmitir... mas uma sombra, ao menos, do que no fundo do nosso espírito sabemos bem ser intraduzível. 
Por exemplo, a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória, como o rasto de um sonho que o tempo não apagará por completo.
A expressão vocabular humana não sabe ainda e provavelmente não o saberá nunca, conhecer, reconhecer e comunicar tudo quanto é humanamente experimentável e sensível..."



E nestes últimos tempos, tenho-me lembrado muito destes dias... :)

13 agosto 2012

...


Obrigada pela companhia em tantas viagens.
Só vocês sabem os passos que foram.
RIP

Miradouro da Torre da Aspa

19 junho 2012

Grrr...


Existem poucas coisas que me irritam, e não me costumo enervar nem stressar com pequenas coisas, sem importância. Acho que é um dispêndio enorme da nossa preciosa energia, desgastar-nos com brigas, conversas, chatices, discussões que não levam a lado nenhum, enfim.
Muitas vezes se calhar as pessoas podem achar que não temos opinião porque não dizemos mais nada, enquanto todos os outros continuam numa grande algazarra expondo os seus mil pontos de vista, todos muitíssimo bem fundamentados, sobre determinado assunto.
Há sempre alguém que gosta de acrescentar mais algum aspecto, dizer mais alguma coisa sobre algo. 
E às vezes por mais estúpida que seja a coisa que se está a discutir, há quem continue insistindo no assunto, como se fosse algo de enorme relevância.

E é nesses momentos que às vezes fico calada.
Não porque não tenha opinião, mas simplesmente porque às vezes acho mesmo que não vale a pena sequer comentar determinadas coisas.
Além de que há situações em que, se não temos algo mais agradável que o silêncio, é melhor resumir-nos a ele.

E depois há outras situações, que talvez sejam as que me irritam mais.
Que é quando falo realmente a sério com alguém, mas esse alguém é descrente em relação a tudo o que digo, não acreditando e negando as minhas opiniões e convicções, mesmo que estas já durem desde que tenho memória de as ter.

Quando somos mais pequenos dizemos coisas que queremos fazer, ou que não queremos fazer, coisas que queremos ter ou não queremos ter.
E é normal, que tendo em conta que ainda somos novos, como não estamos consolidados ao nível da nossa personalidade, que desvalorizem algumas dessas coisas que dizemos... porque "ah, quando crescer há de mudar de ideias...", "agora diz isto, mas daqui a uns tempos vai ver que não é assim", e coisas do género.
Acho que é normal.

Mas quando crescemos, já temos alguma idade, ou pelo menos já temos perfeitamente consciência do que dizemos, acho que é muito infantil e desrespeitoso por parte dessas mesmas pessoas, continuarem a dizer esse tipo de coisas como se ainda tivéssemos 5 ou 6 anos...

Irrita-me solenemente que, quando expomos algumas das nossas ideias fixas que temos desde há muito tempo e algumas desde sempre mesmo, haja pessoas que digam "isso ainda vais mudar de ideias", "vais ver que ainda vais pensar de outra maneira", "ainda tens tempo de pensar melhor nisso", "não te preocupes, que isso passa"...

Irrita-me que não acreditem no que estou a dizer, se são ideias fixas que tenho desde sempre. 
Irrita-me que, lá por eu não pensar como a maioria das pessoas sobre determinados assuntos, quando falo com alguém sobre os mesmos, essas pessoas desvalorizem o que digo, em jeito de esperança e certeza que eu ainda mudo de ideias.
Para, no fundo, ficar a pensar como todos os outros.
Ou seja, não se permitem pontos de vista diferentes? Não se pode defender uma ideia, porque "isso há de passar, e hás de ficar a pensar como todos os outros"??

Odeio que quando exponho essas mesmas ideias, abanem a cabeça em jeito de "coitadinha, ainda não sabe o que diz".
Essas pessoas é que não sabem o que pensam. 
E também não sabem que me perdem.

Existem poucas coisas que me irritam.
Mas esta é uma delas.