08 novembro 2011

Cidades Fantasma no Dia Mundial do Urbanismo...


Gunkanjima

Hashima Island é uma entre as 505 ilhas desabitadas da cidade de Nagasaki, Japão.

A ilha foi povoada entre 1887-1974, ela funcionava como uma instalação de mineração de carvão.

A Mitsubishi comprou a ilha em 1890 e iniciou o projeto, cujo objectivo era extrair o carvão do fundo do mar.

Foram construídos grandes edifícios na ilha e vários blocos de apartamentos em 1916 para acomodar os trabalhadores, muitos dos quais, foram recrutados de outras partes da Ásia.

E para proteger a cidade contra a destruição de tufões, foi construído, um muro de cimento em volta de toda a ilha.

Como o petróleo substituiu o carvão no Japão na década de 1960, as minas de carvão começaram a fechar por todo o país.

A Mitsubishi anunciou oficialmente o fechamento da mina, em 1974, e hoje ela está vazia e nua, razão pela qual ela é chamada de a 'Ilha dos espíritos'.





Humberstone
Humberstone no Chile foi uma cidade que cresceu rapidamente entre os anos 20 e o início dos anos 40 do século XX, aproveitando a riqueza e a prosperidade advinda da mineração e do processamento de nitrato de potássio, também conhecido como salitre.

Quando o salitre sintético foi inventado a cidade entrou em declínio e sua população começou a diminuir até que em 1961 ela ficou completamente vazia.

Desde então, as areias do deserto foram entrando pelos edifícios que sobraram, que ainda possuem mobília e utensílios.

A cidade foi considerada Património Mundial e será preservada como um monumento histórico.






Oradour-sur-Glane

A pequena cidade de Oradour-sur-Glane na França é o palco de um indizível horror.

Durante a II Guerra Mundial, 624 moradores foram massacrados pelos soldados alemães como punição pela resistência francesa.

Os homens foram levados para silos e feridos com tiros nas pernas, pois assim eles morreriam mais devagar.

As mulheres e as crianças, que buscaram abrigo numa igreja, foram todas mortas quando tentaram escapar de lá.

Após essas atrocidades os alemães arrasaram a aldeia e as ruínas permanecem como um memorial a essas mortes.





Agdam
A sinistra cidade de Agdam, no Azerbaijão, já foi uma próspera cidade de 150.000 habitantes.

Isso perdeu-se em 1993 durante a guerra Nagorno Karabakh, e ainda que a cidade não tenha participado nos combates, ela foi vítima do vandalismo enquanto esteve ocupada por arménios.

Os edifícios estão destruídos e vazios, e somente a mesquita coberta de grafite permanece intacta.

Os moradores de Agdam foram removidos para outras áreas de Azerbaijam e também para o Irão.





Balestrino
Balestrino, na Itália, é uma cidade medieval localizada numa estonteante colina a 70 km de Genova.

Tendo sido propriedade da abadia beneditina de San Pietro dei Monti, Balestrino começou a perder sua população no final do século XIX quando os terremotos abriram fendas na região e estragaram muitas propriedades.

Em 1953 a cidade foi abandonada devido a sua “instabilidade geológica”.

A parte da cidade que permaneceu intocada desde essa época está sendo actualmente objecto de um plano de revitalização.





Prypiat
Junto à cidade de Prypiat, na Ucrânia, fica a central nuclear de Chernobyl, lugar onde ocorreu o maior acidente nuclear da história, em Abril de 1986.

A cidade em si e os arredores não são seguros como lugar de habitação para os próximos séculos.





Centralia
Com carvão mineral em abundância, a actividade na mina era a principal fonte de renda da cidade.

Até que em algum dia de 1962 um acidente em uma mina de carvão causou um enorme incêndio.

O fogo espalhou-se pela mina, que se estendia por quase todo o subsolo da cidade, libertando gases tóxicos por toda a cidade.

Em 1992 o estado da Pensilvânia clamou Domínio Eminente em todas as residências, condenando todas as casas e prédios da cidade.

Após os habitantes, o governo também abandonou o projeto de controle do incêndio da cidade, tendo em vista o seu altíssimo custo.

Devido à grande quantidade de carvão mineral, o fogo continua queimando o subsolo da cidade até os dias de hoje, mais de 40 anos após o início.





Kolmanskop
No ano de 1908, atraídos pela caçada ao diamante, os alemães fundaram uma mina na deserta região da Namíbia e fundaram a pequena cidade de Kolmanskop.

A prosperidade da mina fez com que a cidade fosse crescendo em tamanho.

Porém depois da Grande Guerra os diamantes começaram a ficar escassos e os alemães fizeram suas malas.




31 outubro 2011

A Lua que não dei...


“Compreendo os pais, e me encanto com eles, que desejariam dar o mundo de presente aos filhos.

E, no entanto, abomino os que, a cada fim de semana, dão tudo o que os filhos lhes pedem nos shoppings onde exercitam arremedos de paternidade.

E não há paradoxo nisso.

Dar o mundo é sentir-se um pouco como Deus, que é essa a condição de um pai.

Dar futilidades como barganha de amor é, penso eu, renunciar ao sagrado.

Volto a narrar, por me parecer apropriado à croniqueta, o que me aconteceu ao ser pai pela primeira vez.


Lá se vão, pois, 45 anos.

Deslumbrado de paixão, eu olhava a menina no berço, via-a sugando os seios da mãe, esperneando na banheira, dormindo como anjo de carne.

E, então, eu me prometia, prometendo-lhe: “Dar-lhe-ei o mundo, meu amor.”

E não lhe dei.

E foi o que me salvou do egoísmo, da tola pretensão e da estupidez de confundir valores materiais com morais e espirituais.

Não dei o mundo à minha filha, mas ela quis a Lua.

E não me esqueço de como ela pediu a Lua, há anos já tão distantes.

Eu a carregava nos braços, pequenina e apenas balbuciante, andando na calçada de nosso quarteirão, em tempos mais amenos, quando as pessoas conversavam às portas das casas.

Com ela junto ao peito, sentia-me o mais feliz homem do mundo, andando, cantarolando cantigas de ninar em plena calçada.

Pois é a plenitude da felicidade um homem jovem poder carregar um filho como se acariciando as próprias entranhas.

Minha filha era eu, e eu era ela.

Um pai é, sim, um pequeno Deus, o criador.

E seu filho, a criatura bem amada.

E foi, então, que conheci a impotência e os limites humanos.


Pois a filhinha a quem eu prometera o mundo ergueu os bracinhos para o alto e começou a quase gritar, assanhada, deslumbrada: “Dá, dá, dá...”

Ela descobrira a Lua e a queria para si, como ursinho de pelúcia, uma luminosa bola de brincar.

Diante da magia do céu enfeitado de estrelas e de luar, minha filha me pediu a Lua e eu não lhe pude dar.

A certeza de meus limites permitiu, porém, criar um pacto entre pai e filhos: se eles quisessem o impossível, fossem em busca dele.

Eu lhes dera a vida, asas de voar, diretrizes, crença no amor e, portanto, estímulo aos grandes sonhos.


E o sonho da primogênita começou a acontecer, num simbolismo que, ainda hoje, me amolece o coração.

Pois, ainda adolescente, lá se foi ela embora, querendo estudar no exterior.

Vi-a embarcar, a alma sangrando-me de saudade, a voz profética de Kalil Gibran em sussurros de consolo:

“Vossos filhos não são vossos filhos, mas são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.

Eles vêm através de vós, mas não de vós.

E embora vivam convosco, não vos pertencem.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.”

Foi o que vivi, quando o avião descolou, minha criança a bordo.

No céu, havia uma Lua enorme, imensa.

A certeza da separação foi dilacerante.

Minha filha fôra buscar a Lua que eu não lhe dera.


E eu precisava conviver com a coerência do que transmitira aos filhos: “O lar não é o lugar de se ficar, mas para onde voltar.”

Que os filhos sejam preparados para irem-se, com a certeza de ter para onde voltar quando o cansaço, a derrota ou o desânimo inevitáveis lhes machucarem a alma.

Ao ver o avião, como num filme de Spielberg, sombrear a Lua, levando-me a filha querida, o salgado das lágrimas se transformou em doçura de conforto com Kalil Gibran: como pai, não dando o mundo nem Lua aos filhos, me senti arqueiro e arco, arremessando a flecha viva em direcção ao mistério.

Ora, mesmo sendo avós, temos, sim e ainda, filhos a criar, pois família é uma tribo em construção permanente.

Pais envelhecem, filhos crescem, dão-nos netos e isso é a construção, o centro do mundo onde a obra da criação se renovam nunca completar-se-á.

De guerreiros que foram, pais se tornam pajés.

E mães, curandeiras de alma e de corpo.

É quando a tribo se fortalece com conselheiros, sábios que conhecem os mistérios da grande arquitetura familiar, com régua, esquadro, compasso e fio de prumo.

E com palmatória moral para ensinar o óbvio: se o dever premia, o erro cobra.


Escrevo, pois, de angústias, acho que angústias de pajé, de índio velho.

A nossa construção está ruindo, pois feita em areia movediça.

É minúsculo o mundo que pais querem dar aos filhos: o dos shoppings.

E não há mais crianças e adolescentes desejando a Lua como brinquedo ou como conquista.

Sem sonhos, os tetos são baixos e o infinito pode ser comprado em lojas.

Sem sonhos, não há necessidade de arqueiros arremessando flechas vivas.

Na construção familiar, temos erguido paredes.

Mas, dentro delas, haverá gente de verdade?”


Cecílio Elias Netto (escritor e jornalista)

Publicada em 01.08.2008. no 'Correio Popular' – Campinas, São Paulo

17 outubro 2011

Estações...

Estações de comboio perdidas… carris que vão dar ao infinito… plataformas de comboio mágicas…

Há tempos atravessei uma linha do comboio, daquelas perdidas no meio do nada… e apeteceu-me ficar parada a meio… a olhar para o túnel imaginário em que o comboio se sume no horizonte infinito…


Plataformas de comboio são sempre aquele mistério lindíssimo, repleto de simbolismo, e de mil e um inexplicáveis sentimentos…

Existem milhares de linhas de comboio, plataformas e carris... mas as linhas de comboio, as estações de comboio antigas, e os carris por onde o tempo passou são maravilhosos…

Tem um significado muito especial, uma dimensão simbólica de viajar e de distância muito fortes, que dificilmente se consegue explicar.

Permitem-nos sonhar e evadir para muito longe, para o infinito…

E a ideia de ficar a observar o comboio partir da plataforma... e desaparecer ao fundo, tornando-se num pontinho cada vez mais pequeno até que se extingue na paisagem... é aí que se reflecte realmente a ideia de partir de ir, para bem longe...


As estações de comboios têm em si aquele significado simbólico do amor... e essas sensações devem-se ao nosso imaginário remeter para épocas passadas e para todo o desenvolvimento das ligações ferroviárias que permitiram percursos mais distantes... mas também porque o comboio, desde sempre foi um dos primeiros, mais conhecidos e utilizados modos para emigrar.

Aquelas imagens inesquecíveis das pessoas dentro do comboio a acenarem “adeus” pelas janelinhas, às famílias e mulheres que iam ficando progressivamente mais longe e para trás na plataforma, à medida que o comboio ia avançando... Todas essas imagens têm uma carga simbólica muito forte, que nos transporta para o nosso imaginário longínquo…
E significam tudo aquilo da distância e da separação entre as pessoas... E ao contrário, também a chegada, a reunião, o encontro após tempos infinitos à espera do regresso de alguém que nos é querido...

Os comboios, as plataformas, os carris infinitos… têm uma forte carga simbólica e uma dimensão inexplicável das relações entre as pessoas...


Simbolizam a multidão, um lugar onde toda a gente passa, um lugar de todos e um lugar de ninguém... Mas também o lugar onde no meio de uma multidão imensa, sabemos que há aquela pessoa que para nós é importante. E no meio de tantas, só aquela importa, só aquela conta. Só aquela nos diz algo… como se todas as outras que ali estão nem sequer tivessem rosto...


Talvez este tipo de sentimento em relação aos comboios, às antigas locomotivas, e às estações de comboios seja estranho, misterioso e intrigante… mas felizmente ainda existem, perdidas por esse mundo fora, estações paradas no tempo…


Aquelas plataformas inconfundíveis, os pilares rebuscados, o relógio verde que o tempo não tirou as horas...

Tudo é igual a tanto tempo atrás... tudo é igual a como sempre foi…


Parece que o traçado das linhas de comboio foi feito para criar em nós uma nostalgia muito especial, uma memória translúcida de coisas antigas…

Viver a história dos comboios é viver os pedaços de tempo e de matérias de um saber raro: o das deslocações ocasionais, o das deslocações sem fronteira, sem imagens desaparecidas…


E faz-se de tudo no comboio: lê-se, dorme-se, fala-se com alguém.

Há sempre encontros com alguma coisa, com alguém, com a paisagem, com a tranquilidade.


E são sempre lugares de encontro, as estações ferroviárias são uma sala de visita de outras muitas aventuras que nos aguardam de cada vez que viajamos…


Se fecharmos os olhos conseguimos imaginar aqueles lugares apinhados de gente na plataforma e a subir para o comboio. Um frenesim de malas e despedidas, misturado com o apito de partida, o fumegar do carvão a sair da locomotiva, e a chegada dos acenos…


E agora abrimos os olhos… e vemos uma estação deserta, uma plataforma vazia, e carris nus ainda que vão dar a lado algum… E toda uma aura mágica, uma atmosfera de memórias perdidas de um simbolismo transcendente de um passado longínquo que agora jaz naquele lugar perdido no tempo…


E talvez seja por isso que esses lugares nos fazem evocar memórias passadas de tempos longínquos que nem sequer presenciámos. Mas que por alguma razão, parece que os sentimos na pele, como pertencentes ao nosso passado.

E se calhar pertencem…


“Na estação, sob a sua abóbada, comboios e pessoas estranhas reuniam-se como peregrinos.

Sempre pensara que as velhas estações de comboio e caminho-de-ferro eram um dos poucos lugares mágicos que restavam no mundo. Nelas se misturavam os fantasmas de recordações e despedidas como início de centenas de viagens para destinos distantes, sem regresso.

Se eu um dia me perder, procurem-se numa estação de comboios…”


13 outubro 2011

Parabéns a nós :)


Faz precisamente hoje um ano que eu e tu estivemos de Parabéns.

Cada um pelo seu motivo.

Este ano somos três.

Tu estás de Parabéns pela quarta vez. E nós dois estamos de Parabéns pela oitava vez este ano.

Apesar de ultimamente não ter vindo aqui escrever com regularidade, isso é apenas uma fase. Porque o que gera o que escrevo, tem-se mantido.

A reflexão, o pensamento e a interrogação são uma constante que pautam o meu dia-a-dia.

E pelos mais variados motivos.

Apenas nem sempre se materializam num pedaço de papel ou no teu formato digital de acesso global.

Tem estado a ser uma experiência muito gratificante esta forma de ser.

E já gerou recompensas, que foram agradável e surpreendentemente recebidas há poucos dias, mas que tomei apenas como um bom incentivo para a continuação deste profundo trabalho de descoberta pessoal, do que me rodeia, do mundo e do que há para além dele que não se consegue explicar nem traduzir em palavras.

Apenas se sente.

Tal como o carinho que tenho por ti.

Obrigada.

E mais uma vez Parabéns.

A nós.

13 setembro 2011

Esquina anónima...


Rotinas... rotinas que sabem bem... Às vezes é nas pequenas rotinas do quotidiano diário que encontramos os verdadeiros prazeres da vida. Aquilo que realmente nos satisfaz e nos faz sentir bem connosco mesmos. E essas podem ser coisas tão simples... porque na verdade esse prazer vem de dentro, do nosso interior... a satisfação com essas pequenas coisas reside na essência com que as vemos... e sentimo-nos bem porque o nosso estado de espírito está propenso para tal... porque estamos receptivos a absorver as energias positivas que nos rodeiam...

E são coisas tão simples que nos fazem sentir bem... são as coisas mais simples as que nos fazem mais felizes...
Na verdade, são muito poucas as coisas que realmente importam... é preciso muito pouco para se ser feliz...
Uma vida simples, com pouco, mas com o realmente importante, é o caminho para nos sentirmos bem, em paz, e felizes com a nossa existência no mundo.
A apologia da simplicidade é a filosofia que rege a felicidade... porque na verdade precisamos de muito pouco para sermos felizes...
Hoje em dia vivemos mergulhados num mundo regido pelo materialismo, onde o "ter" sobrepõe-se ao "ser", onde os objectos são o objectivo de vida das pessoas e o seu fim último.
E o que temos nunca chega, precisamos sempre de mais, porque já está fora de moda, porque já não se usa, porque já não fica bem, deitamos fora não porque não presta ou está velho, mas porque já há outro novo.
E assim vivemos nesta corrida sôfrega aos objectos, procurando sempre por mais um e mais outro, e nunca chegando a aproveitar, nem tirar partido e desfrutar do que temos, porque estamos constantemente a ansiar por mais e mais!
E vamos acumulando objectos e coisas à nossa volta... e vamos deixando de ter qualquer controlo sobre eles...
Vivemos submersos num consumismo cego que nos destrói por dentro, que não nos dá paz de espírito, nem traz calma à nossa vida.
E quando nos apercebemos disso, dessa inutilidade... socorro! É um sufoco atrofiante viver nesta selva pantanosa de objectos!
Estamos rodeados de todo o tipo de objectos... extenuados e exaustos por este consumo que nos consome!

E se formos a ver... temos tantos objectos e na verdade não temos nenhum mais favorito e que nos seja especial e querido em particular... pelo qual nutrimos uma maior afeição.
Porque a afeição que temos às coisas, tal como às pessoas, cultiva-se.
E se hoje temos um objecto, amanhã outro e depois outro e estivermos sempre a mudar, não temos sequer tempo de nos apegar, nem de ganhar afeição e criar uma ligação ou mesmo desfrutar de determinado objecto.
Nem de desenvolver e criar memórias com ele... ele não significa nada para nós, porque como ele há tantos outros... são todos iguais, nenhum se destaca, nem se distingue dos outros... nenhum nos é particularmente especial ou diferente.
Nenhum nos significa nada. E no fundo temos tantos e somos vazios, sentimo-nos vazios.
Porque a afeição às coisas, aos objectos tem de ser criada, estimulada, cultivada e desenvolvida... e a inconstância da vida em que vivemos não permite essa afeição.
Se tivermos pouca coisa, poucos objectos, aproveitamos e desfrutamos muito mais de cada um deles do que se vivermos mergulhados e afogados no meio deles... tiramos mais partido, gozamos mais e damos mais valor ao pouco que temos.
E somos mais felizes por isso, e assim, do que se tivermos muito.
As pessoas que tem pouca coisa e que vivem para o dia-a-dia, que vivem um dia de cada vez, que vivem devagar, são normalmente muito mais felizes do que as que anseiam por ter tudo e que depois não tem tempo para gozar nada.
As primeiras tem pouco, mas é o mínimo e são felizes assim, gozam o que tem, porque o pouco goza-se muito mais do que o excesso. Quanto mais coisas temos, menos as conseguimos dominar, tomar conta e dar atenção a cada uma delas.
E é assim que às vezes se tem tanto e não se tem nada... porque os objectos não são nada... os objectos e a ostentação de riqueza material não significam de modo algum sentir-se feiz e bem consigo próprios.
Muitas vezes as pessoas com mais objectos são as que tem um maior vazio dentro de si. E isso é a maior prova que não são os objectos que preenchem esses vazios.
Porque tem mais presença em nós, o que nos falta...

A isso poder-se-ia fazer uma simples analogia do espaço. Normalmente, com a melhoria das condições económicas, as pessoas têm a tendência para adquirir casas mais espaçosas, com divisões maiores (para porem todos os objectos que tem...), que se ajustem (?) às suas necessidades, mais amplas... Será isso necessariamente bom?
Se hiperbolizarmos um pouco isso, podemos ver o exemplo das pessoas mais ricas... que vivem em grandes casas, luxuosas mansões, cheias de todos os adornos e decorações possíveis, com divisões a perder de vista... será que são felizes?
Normalmente cada pessoa está isolada numa divisão que lhe foi destinada como sua, como o seu espaço, um local para si própria. E se pensarmos ainda noutra dimensão, essas casas costumam ser no meio do nada, afastadas de tudo, isoladas de todos, casas enormes, onde as poucas pessoas que lá vivem mal tem contacto com o exterior, com outras pessoas, não tem ninguém para conviver... nem um café da esquina para ir trocar dois dedos de conversa...
Ao contrário disso, em meios mais pobres economicamente, ou apenas menos ricos, as divisões e as casas mais pequenas, levam a que as pessoas tenham de estar mais juntas, mais próximas umas das outras... o que naturalmente, e só por si, gera mais convívio, mais espírito de grupo, a possibilidade de desenvolver laços de amizade, o fomentar de relações de solidariedade, de valores, de união, de respeito... E muitas vezes quando o espaço da casa não é suficiente, abre-se a porta, e a vida da casa vê-se estendida para a rua, há um prolongamento da casa para fora, para o exterior, para o bairro, com todas as dimensões sociais, de convívio e de vizinhança associadas que daí advém... E não é isso o mais importante?
Afinal são os espaços mais pequenos os mais acolhedores, e aqueles que proporcionam uma maior felicidade às pessoas... que às vezes até faz esquecer algumas das condições que só os outros com mais espaço têm.

Mais uma vez podemos concluir que temos e aproveitar o pouco que temos porque afinal ele é suficiente, chega. Porque se desejarmos mais, provavelmente vamos estragar qualquer outra coisa que temos e nem temos consciência dessa provável perda.
Vivemos bem com pouco... a única coisa que devemos ter muitos são os sonhos... e a única coisa que devemos querer ter grandes são os horizontes...
E não é preciso muito...
Às vezes basta um livro, um sorriso ou uma conversa para viajarmos em sonhos...
Às vezes basta uma viagem ou uma ideia para abrirmos os horizontes...

Estarmos alienados do mundo... mas ao mesmo tempo atentos a ele e ao que nos rodeia...
E viver de sonhos... sempre.... de noite, mas também de dia... porque os que sonham de dia tem conhecimento de muitas coisas que escapam aos que sonham de noite...

Faz-me o favor de ser feliz! E pára de exigir coisas do mundo. O mundo não te deve nada. Já existia antes de ti...