13 setembro 2011

Esquina anónima...


Rotinas... rotinas que sabem bem... Às vezes é nas pequenas rotinas do quotidiano diário que encontramos os verdadeiros prazeres da vida. Aquilo que realmente nos satisfaz e nos faz sentir bem connosco mesmos. E essas podem ser coisas tão simples... porque na verdade esse prazer vem de dentro, do nosso interior... a satisfação com essas pequenas coisas reside na essência com que as vemos... e sentimo-nos bem porque o nosso estado de espírito está propenso para tal... porque estamos receptivos a absorver as energias positivas que nos rodeiam...

E são coisas tão simples que nos fazem sentir bem... são as coisas mais simples as que nos fazem mais felizes...
Na verdade, são muito poucas as coisas que realmente importam... é preciso muito pouco para se ser feliz...
Uma vida simples, com pouco, mas com o realmente importante, é o caminho para nos sentirmos bem, em paz, e felizes com a nossa existência no mundo.
A apologia da simplicidade é a filosofia que rege a felicidade... porque na verdade precisamos de muito pouco para sermos felizes...
Hoje em dia vivemos mergulhados num mundo regido pelo materialismo, onde o "ter" sobrepõe-se ao "ser", onde os objectos são o objectivo de vida das pessoas e o seu fim último.
E o que temos nunca chega, precisamos sempre de mais, porque já está fora de moda, porque já não se usa, porque já não fica bem, deitamos fora não porque não presta ou está velho, mas porque já há outro novo.
E assim vivemos nesta corrida sôfrega aos objectos, procurando sempre por mais um e mais outro, e nunca chegando a aproveitar, nem tirar partido e desfrutar do que temos, porque estamos constantemente a ansiar por mais e mais!
E vamos acumulando objectos e coisas à nossa volta... e vamos deixando de ter qualquer controlo sobre eles...
Vivemos submersos num consumismo cego que nos destrói por dentro, que não nos dá paz de espírito, nem traz calma à nossa vida.
E quando nos apercebemos disso, dessa inutilidade... socorro! É um sufoco atrofiante viver nesta selva pantanosa de objectos!
Estamos rodeados de todo o tipo de objectos... extenuados e exaustos por este consumo que nos consome!

E se formos a ver... temos tantos objectos e na verdade não temos nenhum mais favorito e que nos seja especial e querido em particular... pelo qual nutrimos uma maior afeição.
Porque a afeição que temos às coisas, tal como às pessoas, cultiva-se.
E se hoje temos um objecto, amanhã outro e depois outro e estivermos sempre a mudar, não temos sequer tempo de nos apegar, nem de ganhar afeição e criar uma ligação ou mesmo desfrutar de determinado objecto.
Nem de desenvolver e criar memórias com ele... ele não significa nada para nós, porque como ele há tantos outros... são todos iguais, nenhum se destaca, nem se distingue dos outros... nenhum nos é particularmente especial ou diferente.
Nenhum nos significa nada. E no fundo temos tantos e somos vazios, sentimo-nos vazios.
Porque a afeição às coisas, aos objectos tem de ser criada, estimulada, cultivada e desenvolvida... e a inconstância da vida em que vivemos não permite essa afeição.
Se tivermos pouca coisa, poucos objectos, aproveitamos e desfrutamos muito mais de cada um deles do que se vivermos mergulhados e afogados no meio deles... tiramos mais partido, gozamos mais e damos mais valor ao pouco que temos.
E somos mais felizes por isso, e assim, do que se tivermos muito.
As pessoas que tem pouca coisa e que vivem para o dia-a-dia, que vivem um dia de cada vez, que vivem devagar, são normalmente muito mais felizes do que as que anseiam por ter tudo e que depois não tem tempo para gozar nada.
As primeiras tem pouco, mas é o mínimo e são felizes assim, gozam o que tem, porque o pouco goza-se muito mais do que o excesso. Quanto mais coisas temos, menos as conseguimos dominar, tomar conta e dar atenção a cada uma delas.
E é assim que às vezes se tem tanto e não se tem nada... porque os objectos não são nada... os objectos e a ostentação de riqueza material não significam de modo algum sentir-se feiz e bem consigo próprios.
Muitas vezes as pessoas com mais objectos são as que tem um maior vazio dentro de si. E isso é a maior prova que não são os objectos que preenchem esses vazios.
Porque tem mais presença em nós, o que nos falta...

A isso poder-se-ia fazer uma simples analogia do espaço. Normalmente, com a melhoria das condições económicas, as pessoas têm a tendência para adquirir casas mais espaçosas, com divisões maiores (para porem todos os objectos que tem...), que se ajustem (?) às suas necessidades, mais amplas... Será isso necessariamente bom?
Se hiperbolizarmos um pouco isso, podemos ver o exemplo das pessoas mais ricas... que vivem em grandes casas, luxuosas mansões, cheias de todos os adornos e decorações possíveis, com divisões a perder de vista... será que são felizes?
Normalmente cada pessoa está isolada numa divisão que lhe foi destinada como sua, como o seu espaço, um local para si própria. E se pensarmos ainda noutra dimensão, essas casas costumam ser no meio do nada, afastadas de tudo, isoladas de todos, casas enormes, onde as poucas pessoas que lá vivem mal tem contacto com o exterior, com outras pessoas, não tem ninguém para conviver... nem um café da esquina para ir trocar dois dedos de conversa...
Ao contrário disso, em meios mais pobres economicamente, ou apenas menos ricos, as divisões e as casas mais pequenas, levam a que as pessoas tenham de estar mais juntas, mais próximas umas das outras... o que naturalmente, e só por si, gera mais convívio, mais espírito de grupo, a possibilidade de desenvolver laços de amizade, o fomentar de relações de solidariedade, de valores, de união, de respeito... E muitas vezes quando o espaço da casa não é suficiente, abre-se a porta, e a vida da casa vê-se estendida para a rua, há um prolongamento da casa para fora, para o exterior, para o bairro, com todas as dimensões sociais, de convívio e de vizinhança associadas que daí advém... E não é isso o mais importante?
Afinal são os espaços mais pequenos os mais acolhedores, e aqueles que proporcionam uma maior felicidade às pessoas... que às vezes até faz esquecer algumas das condições que só os outros com mais espaço têm.

Mais uma vez podemos concluir que temos e aproveitar o pouco que temos porque afinal ele é suficiente, chega. Porque se desejarmos mais, provavelmente vamos estragar qualquer outra coisa que temos e nem temos consciência dessa provável perda.
Vivemos bem com pouco... a única coisa que devemos ter muitos são os sonhos... e a única coisa que devemos querer ter grandes são os horizontes...
E não é preciso muito...
Às vezes basta um livro, um sorriso ou uma conversa para viajarmos em sonhos...
Às vezes basta uma viagem ou uma ideia para abrirmos os horizontes...

Estarmos alienados do mundo... mas ao mesmo tempo atentos a ele e ao que nos rodeia...
E viver de sonhos... sempre.... de noite, mas também de dia... porque os que sonham de dia tem conhecimento de muitas coisas que escapam aos que sonham de noite...

Faz-me o favor de ser feliz! E pára de exigir coisas do mundo. O mundo não te deve nada. Já existia antes de ti...



27 agosto 2011

Natureza em abundância...


Simplesmente olhemos para a existência e sua abundância…

Qual a necessidade de tantas flores no mundo? Apenas rosas bastariam…

Mas a existência é farta… milhões e milhões de flores, milhões e milhões de pássaros, milhões de animais… tudo em abundância…

A natureza não é ascética, ela está dançando em toda a parte… no oceano, nas árvores.

Está cantando em toda parte, no vento passando através dos pinheiros, nos pássaros…

Parece que não há necessidade, excepto que a abundância é a própria natureza da existência, que a riqueza é a sua própria essência… que a existência não acredita em pobreza.

Só o ser humano acredita em pobreza e por isso sofre…

Vive na inconsciência, completamente ignorante a respeito de sua origem divina… nasceu para viver na mesma abundância das flores, das plantas e dos pássaros…

É filho do infinito, mas comporta-se como mendigo, encoberto pela própria escuridão…

Não existimos separados da natureza, somos um só… uma única energia!

Somos aceites por todo o universo… deleitemo-nos nele!

Somos aceites pelo Sol, somos aceites pela Lua, somos aceites pelas árvores, somos aceites pelos oceanos, somos aceites pela terra.
O que mais queremos?

Nascemos para as grandes alturas…

Voemos sem medo, porque somos o infinito!

Assim como tudo na natureza, somos um ser absolutamente sagrado!

Nunca nascemos e nunca morremos… apenas passamos pela terra… como um perfume… para ensinar o amor.


Se crescemos com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma…

07 agosto 2011

Ao pé do Farol não há luz...


Os pais fazem dos filhos, involuntariamente, algo semelhante a eles, a isso denominam “educação”.

Li, certa vez que, ao pé do Farol, não há luz.

Mas, e o que dizer, quando falamos não de uma proximidade geográfica, mas emocional, como na relação entre pais e filhos, por exemplo?


Somente hoje, vejo o suficiente para enxergar, com relativa nitidez, a luz do Farol dos meus pais e para compreender a liberdade acolhedora de seu amor que, antes, eu percebia como sufocante e limitador.

Foi preciso "atirar-me" ao mar, navegar nas ondas e intempéries daquilo a que chamamos vida, para vislumbrar não somente em que me tornei, mas também para reconhecer a segurança do porto de onde parti.

Só assim pude entender não apenas o que hoje sou, mas de que raízes brotei...

Já Kahlil Gibran diz “Vossos filhos não são vossos filhos. São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.”

Como todos os jovens, sempre clamamos por liberdade. E, como todos os jovens, ignorantes e esquecidos dos perigos do desconhecido, enxergava apenas o mar que à minha frente se expandia.

Instintivamente sempre temos em mente a ideia “Deixa-me viver, concede-me a liberdade plena da experiência.”

Lembro que toda vez que discutimos com os nossos pais sobre liberdade, eles nos falam dos perigos que a vida nos reserva.

Mas eu, que estava ao pé do Farol, enxergava apenas a beleza do horizonte e os meus olhos não percebiam a dureza do percurso...

Os filhos crescem, amadurecem, e percebo que, muitos pais, continuam a tratá-los como se tivessem sempre a mesma idade, a mesma mentalidade, as mesmas fraquezas...

Como hoje eu entendo que, para aprender a navegar, precisamos desafiar os tormentos e as borrascas do mar, é chegada a hora de aceitar um dos inevitáveis desígnios da vida: se estamos ao pé do Farol, só podemos ver a luz se entrarmos mar adentro...


E o melhor que nos podem fazer, é desejar-nos boa viagem.

E torcer para que carreguemos connosco um pouco das nossas raízes…

“Acreditar que basta ter filhos para ser um pai é tão absurdo quanto acreditar que basta ter instrumentos para ser músico."
Mansour Chalita

13 julho 2011

Paraísos...


Até hoje, que se saiba, ninguém definiu de forma suficientemente aceitável a natureza do paraíso, os seus limites e configurações.
Achamos que isto e aquilo são o paraíso, a fronteira entre o lugar que habitamos e o lugar que queremos habitar.
Mas não há, até hoje, que se saiba, descrição exacta do lugar onde fica o paraíso, território de circunstância e de silêncio (o paraíso teria de ser necessariamente silencioso, para uns), onde não está em causa falar-se de felicidade.

Os lugares vão desaparecendo...
Com eles, a nossa memória tem a tendência natural para criar outros espaços de paixão e de deslumbramento, de afectividade e de aventura.
Por princípio, diz-se que esses são os últimos paraísos...

07 julho 2011

Rituais Vudus no Benin...


Este estado de crise por que passa a actual sociedade… onde frequentemente os limites entre civilização e barbárie são rompidos… é como uma cegueira decorrente do avanço irrefreado do consumismo desenfreado e do materialismo, fazendo com que os homens percam a consciência de si, se deformem, se massifiquem e se barbarizem...

É como uma cegueira que promove a ruptura com a nossa própria essência, a compaixão, o cuidado, a solidariedade...

Estamos cegos. Cegos que vêem. Cegos que, vendo, não vêem.

Nesta sociedade actual falta-nos filosofia, reflexão, pensar... e precisamos do trabalho de pensar! Mas sem ideias nem ideais, não vamos a parte nenhuma…

Falamos muito ao longo destes últimos anos dos direitos humanos, mas simplesmente deixamos de falar de uma coisa muito simples... que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo.

E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro… tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional…?

O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental... que consiste em estar no mundo e não ver o mundo ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses…